sábado, 3 de maio de 2014

Entrevistámos a artista têxtil Manuela Grandal


Manuela Grandal é uma artista têxtil argentina, que aprendeu de forma autodidata e que trabalha com esculturas têxteis, bordado e costura. A sua obra é muito extensa e variada e quisemos entrevistá-la para que nos contasse mais sobre si.

Quando começou a trabalhar com têxteis?
A minha primeira experiência em trabalho com têxteis foi na escola primária, num curso de costura. Aí realizei o meu primeiro almofadão em patchwork, sem saber bem de que técnica se tratava, e também o meu primeiro boneco de pano. Em minha casa havia uma máquina de costura, por isso quando a minha mãe queria distrair-se do trabalho, fazia coisas para a casa ou desmanchava roupa para costurar uma coisa nova, geralmente bonecos. Nessa altura eu era apenas observadora. Em casa da minha avó havia outra máquina de costura. Foi a essa máquina que me sentei sozinha pela primeira vez. Aí explorei e aprendi muito, bebendo chá com a minha avó.


Sempre pratiquei atividades relacionadas com artes plásticas, mas só em 1998 é que comecei a trabalhar intensamente, experimentando tecidos e outros materiais.
Em 2001 nasceu a primeira boneca, que se chamou “A Jardineira”. Era uma boneca vestida para sair, que estava inserida num pequeno vaso de cerâmica. Esta personagem surgiu de uma peça de teatro, que escrevi nos anos em que estudei teatro. Nessa altura apercebi-me que a minha vocação passava pela cenografia e pela realização e por aí segui o meu caminho.


O desejo de trabalhar só com materiais nobres, sem químicos ou materiais reciclados levou-me a incluir as linhas de bordado e suplantar assim a pintura nos meus trabalhos.

Que técnicas usa principalmente? Como as aprendeu?
Uso a técnica como um meio para chegar ao que procuro. Muitas das técnicas, que utilizo, nem sei quais são, só depois aprendo o nome.

Daquelas que utilizo, as que posso nomear são a costura à mão, à máquina, o bordado livre ou costura livre, o quilting, o bordado… Também tenho experimentado técnicas de estampagem como a serigrafia, a sublimação e as tintas naturais para criar tecidos com desenhos ou texturas próprias.



Aprendi quase tudo a experimentar. Um grande impulso de realização e curiosidade levou-me a encontrar os meios para as coisas, a que me propus. Aprendi o bordado de forma autodidata, fazia o ponto em cadeia e o ponto partido sem saber de que ponto se tratava, isso vinha depois. Depois aprendi alguns pontos em livros de bordado e tutoriais na internet.

Em 2013 fiz um curso de acompanhamento de projeto com a Guillermina Baiguera e foquei-me em alguns trabalhos apenas com bordado. Atualmente estou num curso de análise e acompanhamento da obra de Teresa Giarcovich. Aí tenho experimentado técnicas de estampagem têxtil entre outras coisas…


Existe alguma técnica que gostasse de aprender?
Neste momento estou interessada em pintura por reserva ou pintura a cera com jchanting. Interessa-me como posso gerar desenhos e texturas de base e depois dar-lhes volume com o bordado e a costura. Não quero limitar-me a nenhuma técnica específica, pelo contrário, quero criar uma linguagem própria, utilizando diferentes recursos, que se entrelaçam.



Que tipo de linhas e suportes costuma utilizar?
Normalmente utilizo linhas de costura e de bordado de puro algodão e também fios de lurex e de seda. Quase nunca utilizo mais do que um ou dois cabos devido ao tamanho dos meus trabalhos.

Utilizo bastidores apenas quando bordo sobre um pano de tecido livre e prefiro sempre os bastidores de madeira. Quanto mais antigos, mais me agradam. Mas muitas vezes bordo bonecos ou objetos com mais volume, assim não preciso de suportes.


As esculturas em tecido são inspiradas em personagens reais ou são inventadas? Quanto tempo leva a fazer um retrato?
Os bonecos-retrato são sempre inspirados em personagens reais, que tenho o desejo de retratar, porque algo me chamou à atenção, geralmente pela sua estética ou por alguma particularidade que os torna únicos.


Em muitos casos são personagens reais, que as pessoas me encomendam para presente (namorado, pai, mãe, etc.).
O que mais me interessa neste trabalho, é que no geral todos são pessoas comuns, diferentes e únicas. É como tirar o cunho formal ao retrato e assim qualquer pessoa pode ter o seu.


Entre os mais divertidos que tive de fazer estão a esquiadora, a astróloga, o noivo (boneco-retrato), que se perdeu na festa e me voltaram a entregar, o cowboy e o casal gay.

E a minha preferida, Olga (de Mar del Plata), uma senhora gorda em fato de banho. Olga é o retrato de uma senhora que vi numas férias. Chamou-me à atenção o seu físico e o rosto, e acima de tudo porque não parava de falar. Esbocei-a nas férias e quando cheguei ao meu estúdio, fiz a primeira Olga com gosto. Fiz uma série de 10 Olgas cada uma diferente da outra. Venderam-se todas. E até lhe fiz uma música com o meu namorado, porque a Olga estava cheia de carisma… Pode ouvi-la aqui.


A partir do momento em que me encomendam o retrato, demoro cerca de duas semanas, trabalhando muitas horas por dia. Além da realização do retrato e do saco onde o entrego, que também é pessoal para cada um, às vezes crio cenários para fazer as fotos do retrato, que é o único registo, que fica do meu trabalho. Houve uma vez que me entusiasmei tanto com o “Ruperto el Cowboy”, que acabei por fazer um vídeo, que pode ver aqui.


Conte-nos o que ensina nos seus cursos.
Tenho um espaço, que se chama “Espacio Entretejido”, juntamente com a minha sócia (tricotadeira) Milagros. Fica numa rua dum bairro muito tranquilo, que se chama Florida, próximo da capital, mas ainda na província. Funciona como o nosso estúdio, mas também como o espaço onde damos os nossos cursos. Atualmente dou aulas de costura à mão, costura à máquina, experimentação têxtil, bordado e escultura em tecido.


Também temos no nosso atelier um espaço de loja, onde vendemos os nossos produtos e os doutros artesãos e designers e materiais para tricô, croché, costura e bordado.


Qual é o seu próximo projeto?
Tenho em mente fazer uma coleção de túnicas para mulher, onde uno o conceito de obra e de peça utilitária. Pretendo aplicar nas túnicas diferentes técnicas têxteis, como o batik, serigrafia, sublimação, bordado e patchwork, entre outros.

Muito obrigado, Manuela! Foi um prazer conhecer a sua obra e falar consigo. Se quiser ver mais o seu trabalho, visite o seu site, clicando aqui.

Sem comentários:

Publicar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...