sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Entrevista a Gimena Romero: bordadeira mexicana


Gimena Romero é uma artista mexicana apaixonada pelo bordado. Desde que aprendeu esta técnica nunca mais parou de experimentar e de dar workshops por onde passa. Este ano esteve uns meses em Espanha e aproveitou também para aprender a bordar com fio de ouro em Sevilha. É uma fonte inesgotável de ideias, criatividade e bom humor. Entrevistámo-la para a conhecer um pouco melhor.

Quando e porque começou a bordar?
Comecei a bordar há 6 anos, em França, porque estava sozinha e tinha saudades de casa e da minha família.

Como aprendeu? 
Quando estava em Lyon, comecei de forma autodidata: Passo 1- linha através da agulha, Passo 2- agulha através do tecido… Quando voltei ao México mostrei as minhas boas intenções bordadas à minha mãe (porque eram apenas isso) e ela, que estudou bordado em El Salvador, ficou a olhar para o meu trabalho e passados uns segundos de desaprovação disse com grande firmeza: “Gimena, isto não serve.”. Desfiz tudo. Depois ensinou-me a bordar. Com o tempo continuei sozinha e depois estudei bordado de alta-costura em Lesage e bordado com fio de ouro em Sevilha, também estudei bordado tradicional mexicano nas comunidades daqui.


Que tipo de linhas costuma utiliza?
O tipo de linha depende de cada peça, de cada técnica e acabamento. Gosto muito dos Perlés para os pontos decorativos, uso Mouliné e Retors para coisas mais delicadas. Às vezes bordo também com linhas de costura e às vezes até com cabelo. 


Vimos que trabalha também sobre o papel. Tem algum conselho para bordar em papel?
Digo sempre que se pode bordar praticamente sobre qualquer suporte, só que alguns precisam de um pouco mais de atenção e cuidado e o papel é dos que necessitam de mais cuidado. Para bordar em papel, prefiro sempre fazê-lo com Mouliné de algodão, pois é um fio resistente e suficientemente fino para não estragar o suporte com furos grandes e para não cortar o papel.



Como prepara os seus bordados? Faz o esboço em papel antes ou borda diretamente?
Até estas últimas peças de passarinhos houve sempre um trabalho prévio de desenho, esboços, livros de trabalho, estudos de cor. Neste caso particular peguei apenas no tecido e comecei a bordar, precisava de o fazer. Nesses tecidos larguei o medo e outras coisas, foi muito orgânico, por isso não houve qualquer intenção ou preparação.




O bordado está muito presente na arte popular mexicana. Como é que isso influencia os seus bordados?
Claro! Bem, na realidade só o faço há pouco tempo. Quando nos dedicamos às artes têxteis olhamos sempre para as origens, para as grandes casas de alta-costura francesas, para o bordado tradicional. As coisas mais próximas são fáceis de nos passar despercebidas. Mas no México existe uma grande e variada tradição de bordado, que tenho tido a maravilhosa oportunidade de explorar mais a fundo ultimamente.


Trabalha com electro têxtil, acrescentando luzes led. O que gosta mais nesta técnica e como a aprendeu?
Comecei com o electro têxtil com a “Amor Muñoz” aqui no México com a sua série de esquemas, assisti e bordei para eles parte dessa série. Pareceu-me bastante interessante, o fio que se torna interativo, que convida e envolve o espetador com a peça. O cabo que desaparece e se converte em fio para que com um toque, de repente, se acenda uma luz.


Diga-nos como é um dia normal na vida de Gimena Romero no México.
Meu Deus, não há dias normais no México… Hahahaha! Mas normalmente levanto-me por volta das 7h da manhã, a luz solar influencia-me muito. Tomo o pequeno-almoço, vou comprar um sumo de cenoura à senhora, que vende sumos na esquina. “Bom dia! Bom dia!” e vou ao estúdio ver como passaram a noite as imagens, que deixei no dia anterior (a noite faz-lhes sempre alguma coisa.). De manhã estão sempre diferentes. Volto a pegar nelas, um ponto aqui, outro ponto ali, gosto do resultado, por isso tento outra vez num tecido à parte, ponho-o num quadro de “pontos à mão”, preparo um café, desenho um bocado e lembro-me que tenho uma série pendente e que esses desenhos podem ser úteis. Pausa, almoço e a Pipa pede-me para ir dar um passeio, saímos para apanhar ar fresco e brincar um pouco. Às vezes volto para continuar a bordar ou preparar os tecidos, outras vezes deixo tudo e vou à tarde a um museu ou beber um café e comer um bolo. Na realidade é sempre muito intuitivo. Tal como deve ser, como é a vida sempre.



Conte-nos como funcionam os workshops, que leciona:
Leciono vários workshops no estúdio, não é só partilhar a obra, mas sim o seu processo. À data de hoje dou bordado básico, bordado sobre papel, bordado de alta-costura, bordado com cabelo, bordado tenango (bordado tradicional mexicano) e ilustração têxtil. Cada um tem a sua personalidade. Cada técnica é diferente, cada grupo tem as suas necessidades e a sua química, mas há sempre magia no estúdio. Não sei se são as senhoras ou se é o espaço, mas brinco, dizendo que bordar aqui é como pronunciar palavras mágicas com as mãos para invocar um poema, que nos envolve a todas.


Obrigado Gimena pela sua energia e por partilhar a sua paixão pelo bordado com as pessoas. Se quiser ver mais obras da Gimena Romero ou ver os seus projetos atuais, pode segui-la no Instagram ou no Facebook.

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